Na tarde de 24 de junho de 2026, o norte da Venezuela foi sacudido por um dos episódios sísmicos mais letais das Américas em décadas. O evento reacendeu uma discussão central para qualquer profissional que lide com gestão de risco: como nos preparamos para ameaças que consideramos improváveis ou "impensáveis"? Este é o território do risco subestimado — aquele que, por sua baixa frequência, escapa da percepção coletiva e do planejamento, mas cujo potencial de destruição é imenso.
Anatomia de um evento certificado
Segundo o United States Geological Survey (USGS), o movimento ocorreu como um "duble-te sísmico": um primeiro evento de magnitude 7,2 (Mww) às 18:04 hora local, com epicentro a cerca de 24 km de San Felipe, estado de Yaracuy, seguido, apenas 39 segundos depois, pelo abalo principal de magnitude 7,5, a uma profundidade rasa de apenas 10 km. A pouca profundidade é decisiva para entender a devastação: eventos crustais rasos transferem energia diretamente à superfície. O USGS descreveu o mecanismo como falhamento transcorrente raso no complexo limite entre as placas do Caribe e Sul-Americana, que se deslocam entre si a cerca de 20 mm por ano.
A Fundación Venezolana de Investigaciones Sismológicas (FUNVISIS), órgão oficial do país, destacou que os principais sistemas de falhas sismogênicos venezuelanos são os de Boconó, San Sebastián e El Pilar. Há divergência técnica em aberto: o USGS aponta ruptura provável na Falha de San Sebastián, enquanto uma comissão de campo da FUNVISIS mapeou evidências de ruptura de superfície associadas à Falha de Boconó — reforçando que a caracterização científica do evento permanece em curso.
O ponto crucial é que o evento não era imprevisível em termos geológicos — apenas considerado improvável no curto prazo. A Falha de Boconó rompeu pela última vez em 1812 e acumulava déficit de deslizamento compatível com um evento de magnitude 7,0 a 7,6, segundo avaliações prévias citadas pelo USGS. Os dados de impacto, ainda preliminares, confirmam a dimensão da tragédia: segundo balanço governamental reportado pela ONU, mais de 3.340 mortos, 16.740 feridos e cerca de 17.000 desabrigados. Uma primeira avaliação da UNDRR estimou os danos diretos a moradias e infraestrutura em cerca de US$ 37 bilhões. Especialistas apontam que a devastação resultou da combinação entre o abalo raso e a vulnerabilidade construtiva: menos de 25% das construções no país cumprem os padrões sísmicos da norma vigente. Um risco tecnicamente conhecido, mas negligenciado na prática.
Quando o improvável bate à porta do Brasil
Nenhum país está imune a essa armadilha, e o Brasil tem um exemplo recente: as enchentes no Rio Grande do Sul, em abril e maio de 2024, o maior desastre natural da história do estado segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). As chuvas atingiram 478 dos 497 municípios gaúchos. A pesquisa PEERS, do IBGE, estimou 6,3 milhões de moradores afetados, com mais de 81 mil domicílios destruídos e 190 mil muito danificados. A Defesa Civil confirmou 185 mortes, e mais de 442 mil pessoas deixaram suas casas. O Guaíba, em Porto Alegre, atingiu o recorde de 5,37 metros, superando em mais de 60 cm a marca histórica de 1941.
O relatório conjunto do BID, CEPAL e Banco Mundial estimou o impacto econômico em R$ 88,9 bilhões. As perdas seguradas foram cerca de R$ 6 bilhões, segundo a CNseg, o maior sinistro do setor brasileiro decorrente de um único evento natural, evidência clara da lacuna de proteção. Como observou o presidente da entidade, a enchente afetou lugares que nunca haviam sido alagados. O estudo da ANA revelou ainda que os sistemas de proteção, projetados entre as décadas de 1960 e 1980, falharam por rupturas em comportas, refluxo em galerias e diques abaixo da cota de projeto.
O caso gaúcho não é isolado. Em Petrópolis (RJ), em fevereiro de 2022, a maior tempestade registrada desde 1932 provocou mais de 600 deslizamentos e 241 mortes — em área cujo plano municipal de risco já indicava fragilidade. E a Amazônia enfrentou em 2023-2024 a pior seca de sua história: o Rio Negro atingiu o menor nível desde o início do monitoramento em 1902, segundo o Serviço Geológico do Brasil, na maior seca do país em 70 anos conforme o CEMADEN.
Do reativo ao proativo
O fio condutor entre um terremoto na Venezuela e uma enchente no sul do Brasil é conceitual: eventos de baixa frequência e alto impacto são sistematicamente subestimados. Situações sem histórico recente são percebidas como menos perigosas do que realmente são, e planos de contingência tendem a contemplar apenas cenários já conhecidos — deixando descoberto justamente o risco de cauda.
A resposta é a transição para uma postura proativa, sintetizada nas prioridades do Marco de Sendai da ONU: compreender o risco, fortalecer sua governança, investir em redução de risco para a resiliência e reforçar a preparação para resposta e reconstrução. Na prática, isso significa mapear exposição incluindo cenários de baixa probabilidade; investir em dados, modelagem e monitoramento — como faz o CEMADEN no Brasil; operacionalizar sistemas de alerta antecipado, que a ANA apontou como prioridade após as enchentes gaúchas; testar planos de contingência contra cenários extremos, não apenas rotineiros; e combinar medidas estruturais e não estruturais de adaptação, incorporando critérios climáticos mais críticos.
A lição transversal é clara: tanto o terremoto venezuelano quanto as enchentes gaúchas eram possibilidades conhecidas — falhas mapeadas, planícies de inundação documentadas. O que falhou não foi a ciência, mas a tradução do conhecimento em ação preventiva. Gerir o risco "desconhecido" é, na verdade, gerir aquilo que escolhemos não enxergar. Em um contexto de intensificação de eventos extremos, a resiliência deixa de ser diferencial para tornar-se condição de sobrevivência de comunidades, empresas e infraestruturas.
As informações sobre o terremoto na Venezuela referem-se a uma situação em desenvolvimento e baseiam-se em fontes oficiais (USGS, FUNVISIS, ONU/UNDRR) disponíveis até o início de julho de 2026. Balanços de vítimas e danos são preliminares e podem ser revisados.

